28 abril, 2011

Paradoxo

Paradoxo é se ver inteiro, se perceber inteiro, mas mesmo assim incompleto.

06 outubro, 2006

Atenção senhores passageiros

"Atenção, senhores passageiros da Viação Cometa. Favor dirigirem-se ao seu ônibus na plataforma 6. Viação Cometa - Plataforma 6."

Já era quase meia-noite e Domitila ainda estava trabalhando.
Domitila trabalhava demais. Como todo mundo.
Ela não devia ter aceito fazer o plantão da Ghislaine, mas ela precisava do dinheiro extra pra acertar as contas das Casas Pernambucanas, senão seu nome podia parar no SERASA e SPC. Era o que ameaçavam já... E além disso, ela não iria deixar sua amiga na mão.

"Atenção, senhores passageiros da Viação Itapemirim. Favor dirigirem-se ao seu ônibus na plataforma 8. Viação Itapemirim - Plataforma 8."

Mas Domitila trabalhava muito mesmo. Já dava sinais de cansaço. Umas olheiras, cara de quem dormia mal. E já estava começando a embalharar o seu jeito de falar no dia-a-dia com o seu jeito de falar no trabalho.
Pegou-se um dia desses falando com seu marido: "Dilermando, seu folgando, eu estou cansada! Faz favor de lavar essa louça! Dilermando - Louça!!" Até a pausa ela fez... Dilermando chegou a dar uma risadinha, mas ficou sem graça com a cara que Domitila fez e foi lavar a louça contrariado, fulminado por um olhar.

Domitila estava cansada. Tão cansada que esses dias reclamou da vida com o microfone aberto.
"Atenção, senhores passageiros da Viação Cometa. Favor dirigirem-se ao seu ônibus na plataforma 3. Viação Cometa- Plataforma 3... ah... ai, ai... saco isso, viu? vontade de ir pra casa ver minha novelinha... porque esse povo não sobe logo no ônibus e vai pra... clic" Salva pelo gongo! Ou melhor, pela Ghislaine, amiga salvadora que chegou correndo esbaforida e desligou o aparelho a tempo. O gernete não estava por lá nesse horário, por sorte. Muita sorte.

Mas naquele dia, ou melhor, noite, Domitila surtou.
"Atenção, senhores passageiros da Viação Itapemirim. Favor dirigirem-se ao seu ônibus na plataforma 7, agora, porque o motorista está com pressa e está todo mundo cansado. Viação Itapemirim- Plataforma 7, agora."

"Atenção, senhora Amélia Santos. Seu ônibus lhe aguarda ansiosamente para a partida. Faz favor de agilizar. O portão é o 10 ao lado dos tapetes de couro de vaca. Portão 10 - Senhora Amélia Santos - vaca"

"Atenção, senhor Bernardo Josias. Seu ônibus lhe aguarda, e é só o senhor, pra poder ir embora. Portao 11,. Bernardo Josias - atrasado - Portão 11"

"Atenção senhores passageiros do Ônibus 114. O motorista já lhe aguarda faz 30 minutos para a partida. Gente mal-educada, vai pro ônibus. Eu estou cansada de anunciar, o motorista está cansado de esperar, e isso não se faz com a gente que está trabalhando. Eu ainda tenho que ir pra casa pra fazer um monte de coisa e vocês ficam enrolando aí. Vão de uma vez. A lojinha nem é tudo isso.
Silêncio... enche o pulmão de ar e fala: Passageiros ônibus 114, portão 5."

Domitila foi mandada pra casa. E depois da dispensa médica, ela pediu as contas.

Hoje procura emprego.
Domitila trabalhava demais...

11 setembro, 2006

rEprise

Abriu os olhos. Piscou.
"Vai começar tudo de novo".

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Pode parecer absurdo, mas esse é pra quem já leu "Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século". Um dos livros mais interessantes que já ganhei. O desafio é escrever um micro-conto com até 50 letras (sem contar o título, espaços e pontuação).

Abaixo, um dos mais lindos que já li, escrito pela Lygia Fagundes Telles.

CONFISSÃO
- Fui me confessar ao mar.
- O que ele disse?
- Nada.

Extraído do livro "Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século", editora Ateliê Editorial, organização de Marcelino Freire.

01 setembro, 2006

Celular 01

Ela tinha acordado cedo, como sempre fazia.
Mesmo sendo sábado, acordou cedo, e começou aquela arrumação básica da casa, rotineira. Arrumou a cama, o quarto, deu uma ajeitada no guarda-roupa. Colocou a roupa pra lavar, e ia começar a trabalhar na cozinha, separar as coisas para o almoço. Abriu a geladeira, tirou a alface, uns tomates, um pouco de rúcula ("hidropônica, que é mais gostosa"), e um peito de frango que passou a noite descongelando. Quando tinha acabado de colocar as coisas sobre o balcão, toca o celular.
Tananã-nam-tanana-nam-tananã-nAnAAAm
"Tá na hora de trocar esse toque", pensou e riu consigo mesma.
Olhou o visor, e quem é que estava chamando?!
Ele.
Tananã-nam-tanana-nam-tananã-nAnAAAm
Isso mesmo, era ele, o ex-namorado. Já tinha um mês e pouco que eles tinham terminado o namoro de três anos, e de repente, do nada, ele liga. "Mas a troco de quê?", pensou. Era muito estranho ele ligar...
Tananã-nam-tanana-nam-tananã-nAnAAAm
E o telefone insistia. A mesma musiquinha, o nome dele piscando no visor. "Será que atendo? Mas pra quê?!?!"
O telefone para... Agora, só a mensagem de "1 chamada não atendida" aparecia no visor.
Silêncio total.
O barulho da água transbordando na bacia para lavar as verduras a traz de volta.
"Por que será que ele ligou? Ai, será que ainda quer conversar mais?"
De repente, de novo.
Tananã-nam-tanana-nam-tananã-nAnAAAm
"E agora? Mas de novo? Será que atendo? O que será que ele quer?"
Talvez toda a discussão sobre a relação não tenha sido suficiente. Talvez ele ainda queria conversar mais um pouco. Mas quem quis acabar foi ele! A relação não dava mais certo, ele queria mais espaço, não queria magoá-la, mas não aguentava mais ficar ao lado dela.
Tananã-nam-tanana-nam-tananã-nAnAAAm
E dizer isso não magoa. "Haha! Hello?!" falou ela, pensando alto, rindo, tirando a rúcula e sacudindo, como se a coitada da hidropônica tivesse entendido a piada. E falasse inglês...
E o celular não parava!
Tananã-nam-tanana-nam-tananã-nAnAAAm
"Mas será possível?!", falou alto novamente, agora encarando o telefone e o nome no visor.
Levou a mão e secou, como se fosse atender, mas o telefone parou.
Agora, podia-se ler "2 chamadas não atendidas".
"Ufa", pensou, "agora vou preparar o almoço". Colocou o arroz no microondas. "O que será que ele quer? Será que eu ligo de volta? Afinal, ele ligou duas vezes..."
Tananã-nam-tanana-nam-tananã-nAnAAAm
"Três vezes!!! Deve estar de brincadeira..." pensou mais um pouco "Ou então o negócio é sério!"
Atendeu. A ligação, quase que instantaneamente, caiu.
"Caiu! Será que ligo pra ele? O que será que ele quer?"
E começou a lembrar que, quando conversaram, ele não parecia ter tanta certeza naquilo que dizia. Que pedia distância, mas que não parecia estar pedindo. Afinal, eles se davam tão bem! E ela gostava tanto dele! E sempre se fazia presente! Será que foi isso que estragou? Ou será que ele queria mais? "Vou ligar!", falou, apertando a rediscagem.
Tuuu... Chamou... Tuuu... Chamou... Tuuu... Chamou de novo, e nada de atender. Ela desliga. "Se quiser falar, ele que ligue!", e volta para sua salada, já encarando o frango, como preparar o bichinho.
Tananã-nam-tanana-nam-tananã-nAnAAAm
"Nããããão!!! Só pode ser brincadeira!" Atendeu, e só o que ouviu foi um chiado. Um barulho de respiração. Nada mais. Chamou por ele, mas ninguém respondeu, e novamente, a ligação caiu.
"Ai, Deus, será que ele se arrependeu? Será que está sem coragem de falar alguma coisa? Falar que quer voltar? Ele ainda me ama!!!" E começou a rir, se sentindo meio boba, mas feliz.
Apertou novamente a rediscagem, respirou fundo, e, depois do terceiro chamado, assim que ele atendeu, ela falou: "Se você não tem coragem de falar, não tem problema. Eu já respondo que tudo bem, e que aceito! Vamos conversar e resolver tudo!"... silêncio... "Eu também sinto sua falta, também lhe quero muito..."... silêncio... silêncio absoluto...
De repente, uma gargalhada do outro lado, e PÓF, desliga o telefone na cara dela.
Ela fica estática, e quando se recobra, coloca o telefone de lado e começa a esfaquear o frango. Alguém ia ter que pagar...

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Enquanto isso, o trombadinha que tinha acabado de roubar o celular dele se diverte.
"Peguei mais um! Otária! Daqui a pouco eu ligo de novo... hehehe"